
O governo dos Estados Unidos avança nos trâmites para designar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida acendeu um alerta máximo no governo brasileiro, que teme a abertura de um grave precedente para operações militares estadunidenses dentro do território nacional sob a justificativa de combater o narcoterrorismo.
Com o trabalho técnico já concluído nos Estados Unidos e aguardando apenas a chancela política da administração de Donald Trump, a reversão do quadro é vista como difícil por diplomatas.
A pauta tornou-se a prioridade diplomática do Brasil. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já iniciou tratativas com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, na tentativa de barrar a classificação. O tema também será o foco central da próxima visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Washington.
Transformar facções criminosas em grupos terroristas muda drasticamente a forma como os EUA podem atuar na região, transferindo a questão da esfera da segurança pública para a segurança nacional americana e geopolítica:
Risco de Intervenção Unilateral: A legislação dos EUA autoriza o Pentágono a utilizar força militar de forma unilateral contra entidades classificadas como terroristas, o que tornaria as operações das facções no Brasil alvos legítimos de ataques americanos.
Violação do Direito Internacional: Especialistas como Thomaz Delgado de David (USP) ressaltam que ações militares sem autorização do Conselho de Segurança da ONU violam o princípio da não intervenção e a igualdade soberana entre os Estados. No entanto, o histórico dos EUA mostra que o país frequentemente age à revelia dessas normativas para proteger seus próprios interesses.
Asfixia e Sanções: A medida abre caminho para pesadas sanções financeiras e a imposição de acordos assimétricos, sujeitando as ações de segurança locais e a economia brasileira a leis dos EUA.
A preocupação do Planalto não é teórica. A captura e o sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela por forças americanas em janeiro de 2026 — meses após os EUA classificarem o Cartel de los Soles como organização terrorista — serviram como a prova definitiva de que as ameaças de intervenção direta da atual gestão Trump são reais.
Além disso, o professor Gilberto Maringoni (UFABC) contextualiza que a ofensiva atende às novas diretrizes de segurança de Washington (estabelecidas entre 2025 e 2026), que têm como foco central:
Expulsar a influência chinesa do continente latino-americano, atacando os laços comerciais e os investimentos em infraestrutura da China no Brasil.
Retomar a hegemonia militar na região, ampliando a presença de bases americanas em países vizinhos e forçando o alinhamento da segurança sul-americana aos padrões de Washington.
O debate ganha contornos ainda mais complexos devido ao apoio interno. A classificação do CV e do PCC como terroristas é uma demanda ativa da direita brasileira. Políticos como Flávio Bolsonaro, que chegou a receber uma delegação americana em 2025 para tratar do assunto, apoiam a medida como forma de envolver diretamente a gestão Trump na agenda de segurança do Brasil. Para analistas, isso politiza o combate ao crime e enfraquece a autodeterminação do Estado brasileiro.
A conclusão dos especialistas é clara: o Brasil precisa combater o crime organizado de forma implacável, mas deve fazer isso preservando sua soberania, sem abrir as portas para violações institucionais de potências estrangeiras.
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