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Ex-moradora de rua da capital refaz sua vida em Casa Terapêutica do Governo de SP

Após mais de duas décadas em situação de rua e dependência de drogas, o acolhimento em Casa Terapêutica do Governo de São Paulo transforma sua roti...

26/06/2026 às 08h05
Por: Redação Fonte: Secom SP
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Natural de São Miguel Paulista, na zona leste da capital, Conceição construiu sua vida em meio às dificuldades
Natural de São Miguel Paulista, na zona leste da capital, Conceição construiu sua vida em meio às dificuldades

Quando pega uma linha, uma agulha ou prepara um bolo para as companheiras de casa, Conceição* parece apenas exercer habilidades que domina há anos. Mas cada ponto de crochê, cada receita e cada letra que hoje consegue escrever carregam uma história de superação construída dia após dia. Aos 64 anos, mãe de dez filhos, mulher negra e periférica, Conceição passou mais de duas décadas vivendo nas ruas da capital paulista. Durante esse período, enfrentou a dependência de substâncias psicoativas, sobretudo de crack, conviveu com a solidão, a violência, o preconceito e chegou a perder a esperança de continuar vivendo.

Hoje, acolhida há pouco mais de um ano em uma das Casas Terapêuticas do Complexo da Lapa, equipamento da Política Estadual sobre Drogas, da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo, ela vive uma realidade completamente diferente daquela que conheceu nas ruas.

Foi nesse ambiente de acolhimento, cuidado e reconstrução que descobriu talentos que estavam adormecidos. Aprimorou habilidades em crochê e bordado, passou a se destacar na culinária e ganhou fama entre as companheiras da casa pelos bolos que prepara. Tão querida na cozinha que foi eleita pelas próprias acolhidas como a cozinheira favorita da residência.

Mas nenhuma conquista se compara à emoção de um momento aparentemente simples: escrever o próprio nome.

Durante sua trajetória nas Casas Terapêuticas, Conceição aprendeu a ler e escrever. O dia em que conseguiu registrar sua assinatura diante de um socioeducador tornou-se um dos capítulos mais importantes de sua vida. “Quem sabe, se quando eu era jovem tivesse aprendido a ler, talvez não tivesse me refugiado no caminho das drogas. Teria conhecido outros acessos, outras oportunidades e talvez seguido por outros caminhos. Me vi muito limitada profissionalmente e também emocionalmente por tantas dores que não consegui suportar”, conta.

A alfabetização trouxe mais do que letras. Resgatou autonomia, autoestima e a certeza de que nunca é tarde para recomeçar.

Uma história marcada pela resistência

Natural de São Miguel Paulista, na zona leste da capital, Conceição construiu sua vida em meio às dificuldades. Casou-se ainda jovem e formou uma família numerosa. Teve dez filhos, todos homens, entre eles trigêmeos e um caçula que hoje tem 26 anos.

Enquanto cuidava da casa e dos filhos, também era responsável por garantir o sustento da família. Vendia chocolates em estações de transporte público e realizava faxinas para complementar a renda.

Mas a rotina era atravessada por dores silenciosas. Além das dificuldades financeiras, enfrentava agressões verbais, humilhações constantes e a ausência de parceria dentro de casa. O peso de sustentar sozinha uma família tão grande se somava ao sofrimento provocado por um relacionamento marcado pela violência.

Quando descobriu que também era traída pelo marido, sentiu que já não conseguia suportar a própria realidade. Sem enxergar caminhos possíveis, encontrou nas ruas uma forma de fugir da dor.

Foram mais de vinte anos vivendo em situação de rua. Nesse período, conheceu as chamadas cenas abertas de uso de drogas e mergulhou em um ciclo de vulnerabilidades que parecia não ter saída. A vida nas ruas também deixou marcas físicas. Conceição sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), que comprometeu parte de sua mobilidade.

Hoje, além do acolhimento social, recebe acompanhamento especializado e sessões de fisioterapia que auxiliam em sua reabilitação.

Um futuro que voltou a existir

Quem encontra Conceição atualmente vê uma mulher capaz de realizar tarefas de autocuidado, de conviver em grupo, de demonstrar afeto e até de aceitar abraços, o que era impensável durante os períodos mais difíceis de sua trajetória.

Ela mesma reconhece as mudanças. Aprendeu a cuidar de si, a ter paciência com os processos da vida, a respeitar o próprio tempo e a acreditar novamente no futuro.

Agora, sonha em compartilhar o que aprendeu. Entre seus projetos está o desejo de ensinar costura, bordado, crochê e culinária para outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes aos que ela enfrentou.

“Conceição é uma das acolhidas mais dedicadas ao próprio processo de reconstrução. Sua trajetória demonstra a capacidade transformadora da metodologia das Casas Terapêuticas. O atendimento biopsicossocial qualificado oferecido nesses equipamentos possibilita mudanças profundas e reais na vida das pessoas”, afirma Rafael Olivatto, coordenador do Complexo de Casas Terapêuticas da Lapa.

Cuidado que transforma vidas

A história de Conceição ilustra os resultados da Política Estadual sobre Drogas desenvolvida pelo Governo de São Paulo, que articula diferentes áreas de atuação para oferecer cuidado integral às pessoas em situação de vulnerabilidade.

Entre as iniciativas estão os Complexos das Casas Terapêuticas e os Espaços Prevenir, equipamentos implantados para ampliar o acesso à prevenção, ao acolhimento e à reconstrução de projetos de vida.

Neste 26 de junho, Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), histórias como a de Conceição mostram que o enfrentamento ao problema das drogas passa também pela oferta de oportunidades, acolhimento e cuidado humanizado.
Mais do que superar a dependência química, ela voltou a acreditar em si.
E, pela primeira vez, consegue escrever essa história com as próprias mãos.

*nome fictício para preservar a identidade da entrevistada

Sobre as Casas Terapêuticas

Os números demonstram o impacto significativo do programa. Desde a inauguração em janeiro de 2023 até maio de 2026, as Casas Terapêuticas já acolheram mais de cerca de 1,4 mil pessoas em todo o estado.
O serviço de acolhimento na modalidade Casas Terapêuticas possui uma metodologia desenvolvida para romper com quaisquer aspectos de institucionalização e garantir um processo de intervenção baseado em evidências científicas associadas ao acolhimento em modelo residencial. O atendimento é inteiramente gratuito e estruturado em quatro fases progressivas que respeitam o tempo e as necessidades de cada indivíduo.

A primeira fase, Acolher, foca na recuperação de habilidades básicas. Os acolhidos reaprendem tarefas de autocuidado e auto-organização, como tomar banho, construir uma comunicação não-violenta, cuidar da casa, das roupas e dos objetos pessoais. Também participam de terapias individuais, atividades socioeducativas e culturais, além de desenvolver novas habilidades sociais em um ambiente seguro e acolhedor.

Na fase Despertar o foco são ações que promovam o desenvolvimento de habilidades e competências sociais que promovam o processo de construção e busca por autonomia.

Já na etapa Transformar aprofunda o trabalho terapêutico e prepara para os desafios da vida em sociedade. Por fim, a fase Caminhar tem como objetivo o desenvolvimento das potencialidades de cada indivíduo, com incentivo para o retorno aos estudos e ao mercado de trabalho, até a conquista da autonomia com renda e moradia próprias

Após a finalização das quatro etapas, o acolhido continua sendo acompanhado pela equipe técnica por pelo menos seis meses para prevenção de recaídas, garantindo suporte contínuo durante a reintegração social. Fundamental para consolidar as conquistas alcançadas e evitar retrocessos no processo de recuperação.

Por meio da Diretoria de Políticas Sobre Drogas (DPOD), as Casas Terapêuticas atuam de forma articulada com o sistema de saúde municipal e estadual, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS e CAPS AD), além de parcerias com a rede de assistência social e educação. O serviço conta com uma equipe interdisciplinar composta por coordenadores, psicólogos, assistentes sociais, socioeducadores, pedagogos, mentores financeiros, entre outros.

As Casas Terapêuticas já funcionam na capital paulista, na região de Osasco e na região de São José do Rio Preto, e a expansão contínua do programa representa o compromisso do Governo do Estado com políticas públicas efetivas de enfrentamento à dependência química e de promoção da dignidade humana.

O serviço integra a Política Sobre Drogas do Governo do Estado de São Paulo, sob coordenação da Secretaria de Desenvolvimento Social, e consolida a aposta no tratamento como caminho fundamental para transformar vidas e reconstruir trajetórias marcadas pela vulnerabilidade social e pelo uso abusivo de substâncias psicoativas.

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