Eleições 2026

Canella pediu fuzil da PM com aval de candidato do PL

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Por Carlos viana

21/07/2026 07:20 · 7 min de leitura

Canella pediu fuzil da PM com aval de candidato do PL
Foto: Politica Revista Forum

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Márcio Canella (União Brasil), pré-candidato ao Senado apoiado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pediu à Polícia Militar do Rio o fuzil calibre 5,56 encontrado pela Polícia Federal em seu carro em 7 de julho. Segundo apuração da coluna Segredos do Crime, de O Globo, a liberação teve o aval do então comandante-geral da corporação, Marcelo de Menezes Nogueira, hoje pré-candidato a deputado estadual pelo PL.

O fuzil, porém, não ficou formalmente em nome de Canella. A arma da PM foi acautelada ao terceiro-sargento Alexandre Paixão da Silva Júnior, integrante da segurança pessoal do político e cedido ao Departamento Estadual de Trânsito do Rio de Janeiro (Detran-RJ). O documento assinado durante a gestão de Menezes teria validade até 2027.

A revelação altera o centro da explicação apresentada após a prisão. A defesa de Canella sustentou que o fuzil pertencia à PM, estava regularmente sob responsabilidade do sargento e havia sido deixado no veículo pelo policial. O pedido para que a corporação disponibilizasse o armamento, no entanto, partiu do próprio pré-candidato.

Menezes autorizou fuzil solicitado por Canella

Marcelo de Menezes Nogueira comandou a Polícia Militar e ocupou a Secretaria de Estado de Polícia Militar entre abril de 2024 e março de 2026. Ele foi substituído pelo coronel Sylvio Guerra em 25 de março, após permanecer quase dois anos à frente da corporação.

Menezes deixou o comando para entrar na disputa eleitoral e atualmente se apresenta como pré-candidato a deputado estadual pelo PL. A autorização para o fuzil solicitado por Canella ocorreu quando o coronel ainda concentrava o comando administrativo e operacional da PM.

A relação entre os dois não se limitava ao procedimento interno que liberou a arma. Em fevereiro, Canella e Menezes inauguraram juntos uma companhia da Polícia Militar no bairro Bom Pastor, em Belford Roxo. Na ocasião, o então prefeito agradeceu publicamente ao comandante pelo apoio à segurança do município.

Canella também divulgou ações policiais nas redes sociais e creditou Menezes pelo reforço de efetivo e por operações realizadas na cidade. Depois de deixar a prefeitura para disputar o Senado, o político participou de agenda sobre segurança pública com Menezes e o deputado federal Eduardo Pazuello (PL-RJ).

Fuzil estava em nome de PM lotado no Detran

Alexandre Paixão, responsável formal pela arma, estava cedido ao Detran-RJ desde outubro de 2025. Ele ocupava o cargo em comissão de ajudante I na Coordenadoria de Segurança da Corregedoria do departamento.

A Polícia Federal passou a investigar se o sargento exercia efetivamente funções no Detran ou se a cessão ao órgão público servia para mantê-lo na segurança particular de Canella. A apuração ganhou peso porque o fuzil não estava com o policial, mas no porta-malas de um veículo de propriedade do pré-candidato.

Dois dias após a apreensão, o Diário Oficial do Estado publicou a exoneração de Alexandre Paixão do cargo no Detran. A Polícia Militar informou que a arma estava regularmente acautelada ao sargento, mas abriu um procedimento na Corregedoria para apurar a conduta do agente e as circunstâncias em que o fuzil foi parar no carro.

O Detran também aparece em outra frente da Operação Unha e Carne. O delegado Marcus Amim, que presidiu o departamento entre julho e outubro de 2023 e depois comandou a Polícia Civil no governo Cláudio Castro (PL), foi alvo de busca e apreensão na mesma fase da operação.

Moraes apontou dúvidas sobre arma da PM no carro

A versão de que o fuzil estava regularmente cedido ao segurança não encerrou o caso. Ao conceder liberdade provisória a Canella, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), registrou que permaneciam dúvidas sobre a regularidade da posse da arma por Alexandre Paixão e sobre o motivo de o armamento estar no veículo particular do político.

O ministro determinou que a Polícia Militar apresentasse esclarecimentos sobre as armas da corporação encontradas durante a operação e sobre a atuação de policiais militares na segurança dos investigados. A ordem também alcançou outro PM encontrado com armamento institucional em um dos endereços alvo das buscas.

Canella foi solto com tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar noturno e nos fins de semana, entrega do passaporte e proibição de portar armas. A decisão que concedeu liberdade provisória não analisou o mérito das suspeitas investigadas pela PF.

Fuzil atingiu palanque de Flávio Bolsonaro

O episódio atinge diretamente a montagem do palanque bolsonarista no Rio. A Fórum já havia mostrado o vídeo em que Flávio Bolsonaro declara “apoio 100%” ao “amigo” Márcio Canella na disputa pelo Senado.

O vínculo avançou para dentro da chapa. Rogéria Nantes Braga, mãe de Flávio, foi apresentada como primeira suplente de Canella. A composição colocou o ex-prefeito de Belford Roxo no núcleo da estratégia eleitoral da família Bolsonaro no estado.

A apuração da Fórum sobre a entrada de Rogéria na chapa também recuperou relações políticas construídas por Canella na Baixada Fluminense e os personagens alcançados pela Operação Unha e Carne.

Após a prisão, Flávio reduziu as manifestações públicas em defesa do aliado. A crise passou a ameaçar a segunda candidatura ao Senado no palanque bolsonarista e provocou tensão entre o PL e o União Brasil, partido presidido por Canella no Rio.

Operação apura rede que movimentou R$ 7,6 bilhões

O fuzil foi encontrado durante a sexta fase da Operação Unha e Carne. Segundo a Polícia Federal, a investigação mira uma organização criminosa suspeita de usar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio para lavar dinheiro, com participação de agentes públicos.

Um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontou movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões em seis anos. A PF cumpriu 19 mandados de busca e apreensão no Rio, em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende.

A Fórum publicou os elos políticos alcançados pela operação, que passam pelo entorno de Flávio Bolsonaro, pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e por personagens ligados à estrutura de poder montada na Baixada Fluminense.

Canella era inicialmente alvo de busca e apreensão, mas acabou preso em flagrante depois que os agentes encontraram o fuzil de uso restrito em seu veículo. Ele foi levado posteriormente para Bangu 8, onde permaneceu até a ordem de soltura de Moraes.

O ex-prefeito segue investigado e não foi condenado. A nova revelação, contudo, acrescenta uma etapa à cadeia da arma: Canella pediu o fuzil, o então comandante da PM autorizou a liberação e o armamento público foi colocado formalmente em nome de um sargento lotado no Detran antes de ser encontrado no carro do pré-candidato.

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