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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) prometeu publicamente, em 19 de maio, que a produtora Go Up Entertainment divulgaria em até 30 dias a prestação de contas do financiamento de Dark Horse, cinebiografia sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Dois meses depois, nem o senador nem a produtora apresentaram os detalhes ao público. A promessa foi feita às pressas, após a divulgação de um áudio em que Flávio pedia dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e atualmente preso por ser pivô da maior fraude financeira da história do Brasil, para bancar o projeto.
Flávio Bolsonaro não cumpre promessa de transparência
No dia 19 de maio, acuado pela repercussão do áudio em que negociava recursos com Vorcaro, Flávio Bolsonaro foi à imprensa com uma promessa de abertura. “Meus pedidos, tanto à produtora quanto ao fundo, (foram) que eles se organizassem para fazer uma prestação de contas a todo mundo das despesas que foram feitas em função desse investimento no filme, de forma transparente, em até 30 dias. Foi o que eu pedi”, declarou o pré-candidato. A iniciativa foi apresentada como garantia de que não havia irregularidades no financiamento do longa.
O prazo de 30 dias foi atingido no mês seguinte. Passado mais um mês, a prestação de contas detalhada ainda não foi divulgada publicamente, nem por Flávio Bolsonaro nem pela produtora Go Up Entertainment. A pré-campanha do senador afirma que o assunto está com a Go Up. A produtora, por sua vez, alega que as informações já foram prestadas à Justiça. O problema é que o processo corre sob sigilo. “Nossa prestação de contas do projeto privado foi inclusa nos autos e já divulgada há dois meses. Fizemos isso através de uma perícia judicial”, afirmou Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up. O que foi entregue ao Judiciário, portanto, permanece fora do alcance do público, e a promessa de transparência virou letra morta.
A promessa havia sido feita também como resposta a uma reunião convocada pelo próprio senador com integrantes do PL para explicar sua relação com Vorcaro. Na ocasião, Flávio afirmou que eventuais valores ligados ao investimento do banqueiro deveriam ficar separados e à disposição das autoridades caso o filme gerasse retorno financeiro. Nenhuma dessas medidas foi comprovada publicamente até agora.
O financiamento suspeito de Dark Horse
Daniel Vorcaro, preso na penitenciária da Papudinha, é apontado como um dos principais financiadores de Dark Horse. Segundo apuração do Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro negociou diretamente com o banqueiro um total de US$ 24 milhões, equivalentes a R$ 134 milhões, para bancar o filme. Os recursos de Vorcaro teriam chegado ao projeto por meio do fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos e controlado pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro: o fundo recebeu cerca de US$ 10,6 milhões (aproximadamente R$ 61 milhões) em aportes do banqueiro.
A produtora Go Up Entertainment apresentou à Justiça um laudo pericial que declara ter gasto R$ 75 milhões na produção do filme, com a totalidade dos valores proveniente do fundo Havengate. O laudo, revelado em junho pelo site Metrópoles, indica que o custo declarado representa 56% do valor que Flávio havia negociado com Vorcaro. O documento, porém, não identifica quem foram os financiadores do projeto. “Quanto à origem dos recursos financeiros, a Perícia constatou que os ingressos vinculados ao projeto possuem origem privada, comprovada por contratos de investimento, extratos bancários, documentos de remessa e demais registros financeiros disponibilizados para análise”, diz o laudo, sem especificar de onde veio o dinheiro. A alegação de “origem privada” funciona, na prática, como uma cortina: confirma que há recursos, mas não diz de quem.
Contexto e implicações da falta de prestação de contas
A associação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro teve custo político imediato. A relação de proximidade com o banqueiro, preso por ser pivô da maior fraude financeira da história do Brasil, desgastou a reputação do senador e resultou em queda nas pesquisas de intenção de voto.
As autoridades mantêm suspeitas sobre a origem dos recursos, especialmente diante de um laudo pericial que não identifica os financiadores e de um processo que tramita sob sigilo. A combinação desses elementos, um documento judicial genérico, um fundo offshore controlado por aliados da família Bolsonaro e um banqueiro preso por fraude, impede qualquer verificação independente das contas.
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