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Daniel Vorcaro acionou Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, para tomar uma “medida urgente” contra Vladimir Timerman, fundador e gestor da Esh Capital, depois de o empresário publicar uma mensagem sobre ter encontrado o “Jeffrey Epstein brasileiro”.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que Mourão colocou a estrutura privada de vigilância de Vorcaro para acompanhar Timerman 24 horas, levantar dados pessoais e preparar ações contra seus e-mails, telefones e contas em redes sociais. A revelação foi publicada nesta quarta-feira (22) pelo blog da jornalista Malu Gaspar, de O Globo.
Vorcaro reage a post que não citava Banco Master
A ofensiva começou em dezembro de 2023, quando Timerman publicou nas redes sociais críticas a um bilionário que, segundo ele, oferecia retornos financeiros considerados milagrosos com carteiras lastreadas em fundos de investimento deteriorados.
Em outra publicação, o gestor afirmou ter encontrado o “Jeffrey Epstein brasileiro” e defendeu a exposição pública do personagem e de seus aliados. Timerman também alegou ter recebido informações sobre mulheres que teriam sido vítimas, mas não apresentou nomes. Nem Vorcaro nem o Banco Master foram citados diretamente nas mensagens.
Vorcaro, no entanto, encaminhou capturas das publicações a Mourão. Segundo o relatório da PF, o então controlador do Master afirmou que Timerman tentava extorqui-lo e disse que seria necessário “tomar uma medida URGENTE” contra o gestor.
A solução discutida era pressionar Timerman a prestar esclarecimentos formalmente sobre as acusações feitas nas redes, embora ele não tivesse identificado o banqueiro nos textos.
“A Turma” monitorava Vladimir Timerman 24 horas
No mesmo dia, Vorcaro enviou ao Sicário documentos de uma investigação instaurada meses antes contra Timerman, incluindo um despacho da Polícia Civil de São Paulo, dados de qualificação do empresário e informações sobre procedimento que tramitava no Ministério Público Federal.
Para a PF, o material indica que Vorcaro acompanhava o andamento de processos contra o gestor e pretendia utilizar investigações formais para pressioná-lo.
Horas depois, Mourão informou que “A Turma”, milícia privada ligada a Vorcaro, já mantinha Timerman “monitorando 24h”. O Sicário afirmou ainda que confirmava os dados do alvo e preparava mecanismos para assumir o controle de contas digitais e bloquear seus canais de comunicação.
Dois dias depois, Mourão voltou a procurar Vorcaro com quatro consultas processuais sobre Timerman. Os registros continham informações submetidas a sigilo judicial.
Vorcaro mandou dar “carga total” no gestor
O monitoramento se prolongou em 2024. Em março daquele ano, segundo a PF, Mourão conseguiu acessar informações sigilosas de inquéritos por meio das credenciais de uma servidora do MPF em Brasília.
Os investigadores ainda não determinaram se o acesso ocorreu com a colaboração da funcionária ou por invasão do sistema. O relatório registra, porém, que documentos protegidos por sigilo máximo foram obtidos em pouco tempo e sem justificativa formal.
Três meses depois, Vorcaro, Timerman, Nelson Tanure e Maurício Quadrado foram intimados a depor em uma investigação relacionada à disputa pelo controle da Gafisa. Ao saber da nova movimentação, o banqueiro ordenou “carga total” contra o fundador da Esh e afirmou que ele não pararia enquanto não fosse preso.
Mourão respondeu que havia enviado integrantes do grupo para observar o caso de perto. Dias depois, comunicou a Vorcaro que dispunha de “acesso total e ilimitado” aos documentos e pediu novos nomes de pessoas ou empresas que deveriam ser pesquisadas.
A PF apontou uma “atuação direta” de Vorcaro e Mourão na condução de providências relacionadas a procedimentos policiais, além de uma possível tentativa de direcionar e controlar a narrativa das investigações.
Denúncia sobre Gafisa chegou à CVM e ao MPF
Timerman travava uma disputa societária contra fundos ligados ao Banco Master e ao empresário Nelson Tanure, então acionistas da Gafisa. O gestor acusou o grupo de realizar operações para ampliar indiretamente o controle de Tanure sobre a incorporadora, manipular o mercado e ocultar conflitos de interesse.
As denúncias deram origem a procedimentos na Comissão de Valores Mobiliários e no Ministério Público Federal. Tanure nega ter sido sócio oculto ou controlador do Banco Master e sustenta que manteve apenas relações comerciais regulares com a instituição.
Vorcaro e o Master reagiram com uma queixa-crime por calúnia e difamação contra Timerman. O banco foi representado pelo escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A ação foi rejeitada pela 14ª Vara Criminal de São Paulo por falta de justa causa. O Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a decisão em outubro de 2025, após parecer do Ministério Público apontar ausência de elementos suficientes para demonstrar intenção específica de ofender.
Meses depois, em depoimento à CPI do Crime Organizado no Senado, Timerman voltou a acusar Tanure de exercer influência oculta sobre o Master e afirmou que Vorcaro seria apenas a face pública da instituição.
Sicário recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro
Uma decisão do ministro André Mendonça, relator da Petição 15.556 no STF, descreve Mourão como coordenador operacional de “A Turma”. O grupo seria responsável por vigiar, obter informações sigilosas e intimidar jornalistas, concorrentes e antigos funcionários do conglomerado.
De acordo com a decisão, o Sicário recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro, com pagamentos operacionalizados por Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro. Mourão também teria obtido acesso indevido a sistemas da PF, do MPF, do FBI e da Interpol.
Mourão morreu em março de 2026, depois de ser encontrado desacordado na carceragem da Polícia Federal em Belo Horizonte e levado ao Hospital João XXIII.
Vorcaro permanece preso preventivamente. Em junho, Mendonça rejeitou o pedido de prisão domiciliar apresentado pela defesa e determinou sua transferência para o Centro de Detenção Provisória II, no Complexo Penitenciário da Papuda, conhecido como Papudinha.
Segundo O Globo, a defesa de Vorcaro e Timerman não se manifestaram sobre as novas mensagens até a publicação da reportagem.
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