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Um trem da Trivia Trens, empresa que assumiu três linhas privatizadas pelo governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), pegou fogo na manhã desta quinta-feira (23), no terceiro dia de operação da concessionária. O incêndio interrompeu o fornecimento de energia, paralisou ramais da CPTM e obrigou passageiros a abandonar as composições e caminhar pelos trilhos em São Paulo.
A ocorrência atingiu um trem da Linha 12-Safira na região da estação Bresser-Mooca. O Corpo de Bombeiros foi acionado durante a madrugada e informou que não houve registro de vítimas. Imagens feitas após o controle das chamas mostram o interior do vagão destruído, com bancos queimados, revestimentos derretidos e o piso coberto por destroços.
O episódio ocorreu depois de dois dias consecutivos de falhas nas linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, que começaram a ser operadas pela Trivia Trens na terça-feira (21). A sequência de panes, atrasos, superlotação e interrupções reacendeu as críticas ao programa de privatizações do transporte sobre trilhos conduzido pelo governo Tarcísio.
Incêndio paralisa linhas e deixa passageiros nos trilhos
Segundo a concessionária, o incêndio provocou uma falha no sistema de alimentação elétrica e exigiu o desligamento de subestações. A Linha 12-Safira e a Linha 13-Jade tiveram a circulação interrompida, enquanto a Linha 11-Coral passou a operar parcialmente entre as estações Estudantes e Corinthians-Itaquera.
O Serviço Expresso Aeroporto também foi suspenso. Passageiros que seguiam para o Aeroporto Internacional de Guarulhos precisaram buscar rotas alternativas pelo Metrô e por ônibus intermunicipais.
Com os trens imobilizados, usuários desembarcaram sobre a via e caminharam pelos trilhos. Nos trechos mais escuros, passageiros usaram as lanternas dos celulares para enxergar o caminho. Policiais militares foram acionados para auxiliar na retirada das pessoas.
Imagens registradas na zona leste mostram soldados ajudando passageiros a atravessar muros e alcançar a avenida Celso Garcia. Idosos e pessoas com mobilidade reduzida precisaram ser amparados durante o percurso.
A concessionária acionou o Plano de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência (Paese), com ônibus destinados ao trecho entre Bresser-Mooca e USP Leste. Passageiros, no entanto, relataram falta de informações sobre os locais de embarque e os trajetos oferecidos.
Trivia Trens acumula falhas desde o primeiro dia
O incêndio ocorreu no terceiro dia de operação da Trivia Trens. A empresa assumiu as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade após uma fase de transição acompanhada pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.
Na terça-feira, primeiro dia da nova operação, passageiros enfrentaram atrasos, estações lotadas e dificuldades para embarcar. Os problemas continuaram na quarta-feira (22), com trens parados e reflexos durante a madrugada.
Na quinta-feira, o incêndio provocou a maior interrupção desde o início da concessão. A Linha 3-Vermelha do Metrô recebeu a demanda dos passageiros impedidos de seguir viagem pelos trens e precisou reforçar sua operação.
O Metrô colocou composições adicionais em circulação e abriu as transferências nas estações Tatuapé e Corinthians-Itaquera. A Prefeitura de São Paulo também suspendeu temporariamente o rodízio municipal em vias da zona leste.
A sucessão de ocorrências transforma os primeiros dias da Trivia Trens em um retrato da precarização denunciada por trabalhadores e entidades contrárias à transferência das linhas para a iniciativa privada.
Haddad criticou privatização antes do incêndio
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já havia criticado a privatização na quarta-feira, antes de o trem pegar fogo. Ele publicou imagens da Estação Brás lotada e destacou que o cenário ocorria no primeiro dia da nova operação.
https://x.com/Haddad_Fernando/status/2079969648171270486
“Assim estava a Estação Brás ontem, aqui em São Paulo, no primeiro dia de operação privatizada das linhas 11, 12 e 13 da CPTM”, escreveu Haddad.
O incêndio registrado no dia seguinte ampliou a repercussão sobre o modelo adotado pelo governo paulista. As imagens do vagão destruído e dos passageiros caminhando pelos trilhos circularam nas redes sociais ao longo da manhã.
https://x.com/lazarorosa25/status/2080245034461401334
https://x.com/EdianeMariaMTST/status/2080267063751250115
https://x.com/Sinklayjogador/status/2080217204159660079
Concessão de Tarcísio tem duração de 25 anos
A Trivia Trens pertence ao Grupo Comporte, vencedor do leilão das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade. O contrato fiscalizado pela Artesp tem duração de 25 anos e prevê R$ 14,3 bilhões em investimentos.
A operação começou sob supervisão da CPTM. A concessionária deve assumir integralmente os serviços em julho de 2027, depois do período de operação assistida.
As três linhas conectam o centro de São Paulo à zona leste da capital, ao Alto Tietê e ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. Somadas, atendem centenas de milhares de passageiros que dependem dos trens para trabalhar e estudar.
A concessão promete investimentos em trilhos, rede elétrica, sinalização, estações e sistemas operacionais. A Lei Geral de Concessões estabelece que serviços públicos concedidos devem ser prestados com regularidade, continuidade, eficiência e segurança.
O incêndio no terceiro dia, somado às falhas anteriores, expõe a distância entre as promessas apresentadas para justificar a privatização e o serviço entregue aos passageiros no início da operação.
Falhas nas linhas privatizadas já vinham crescendo
O colapso da Trivia Trens não ocorre de forma isolada no sistema ferroviário paulista. Levantamento publicado pela Revista Fórum mostrou que as falhas nos trens metropolitanos cresceram no primeiro semestre de 2026, impulsionadas pelos problemas registrados nas linhas privatizadas.
As linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, administradas pela ViaMobilidade, acumulam histórico de descarrilamentos, falhas elétricas, panes e longos períodos de circulação em velocidade reduzida.
A transferência das linhas 11, 12 e 13 deixou a CPTM responsável apenas pela Linha 10-Turquesa. O avanço das concessões reduz a presença direta do Estado na operação enquanto amplia a responsabilidade das agências reguladoras pela fiscalização das empresas.
A Artesp informou que acompanha a ocorrência e as providências adotadas pela concessionária. Até a atualização desta matéria, a causa definitiva do incêndio não havia sido divulgada e o governo estadual não havia anunciado penalidades contra a Trivia Trens.
Para os passageiros, o resultado concreto dos três primeiros dias foi uma sequência de atrasos, superlotação, falta de informação, interrupções e risco. O trem destruído pelo fogo transformou-se na imagem mais explícita da fragilidade de um modelo vendido pelo governo Tarcísio como modernização do transporte público.
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