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Tarifaço: PT cobra resposta dura aos EUA, com aplicação da Lei da Reciprocidade

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Por Carlos viana

18/07/2026 07:45 · 9 min de leitura

Tarifaço: PT cobra resposta dura aos EUA, com aplicação da Lei da Reciprocidade
Foto: Lula e Trump - Foto: Daniel Torok

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A Bancada do PT na Câmara dos Deputados defendeu uma resposta imediata e proporcional do Brasil ao novo tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Em nota divulgada nesta sexta-feira (17), os parlamentares cobraram a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica, o acionamento da Organização Mundial do Comércio (OMC) e medidas para proteger os empregos, os trabalhadores, os produtores, as empresas e a indústria nacional.

No documento, assinado pelo líder da bancada, deputado Pedro Uczai (SC), o PT responsabilizou diretamente a família Bolsonaro pela escalada comercial promovida pelo governo de Donald Trump e acusou Jair, Flávio e Eduardo Bolsonaro de atuarem como lobistas dos interesses econômicos dos Estados Unidos no Brasil.

“A família Bolsonaro é responsável pelo tarifaço contra o Brasil”, afirma a bancada.

A reação ocorre após Washington confirmar uma tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras, com entrada em vigor prevista para 22 de julho. O governo Lula considera a medida unilateral, arbitrária e baseada em argumentos sem sustentação econômica.

PT defende resposta imediata aos Estados Unidos

Para a bancada petista, o Brasil não pode aceitar passivamente uma agressão comercial com impacto direto sobre a economia, a produção e o mercado de trabalho.

O partido defende que o governo utilize todos os instrumentos jurídicos, comerciais e diplomáticos disponíveis, incluindo contramedidas proporcionais aos prejuízos provocados pelas tarifas norte-americanas.

A Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, estabelece procedimentos para que o Brasil responda a medidas comerciais unilaterais adotadas por outros países.

Bancada aponta atuação do clã Bolsonaro contra o Brasil

Além de defender a reação brasileira, o PT denunciou a atuação política da família Bolsonaro junto ao governo Trump. Segundo a bancada, o grupo tem trabalhado para subordinar os interesses nacionais aos objetivos econômicos e políticos dos Estados Unidos.

O documento também reage às declarações de Flávio Bolsonaro, que tentou atribuir ao presidente Lula a responsabilidade pela decisão norte-americana.

Segundo a bancada, a tentativa de transferir a culpa ao governo brasileiro demonstraria o “desespero” de Flávio diante do escândalo do Banco Master e das ligações apontadas pelo partido com Daniel Vorcaro e Sicário.

O PT também relaciona a atuação dos três integrantes da família a interesses sobre recursos e estruturas estratégicas do país.

Pix, Amazônia e terras raras entram no centro da disputa

O sistema brasileiro de pagamentos instantâneos tornou-se um dos principais pontos de atrito entre Brasília e Washington. O governo Trump classificou o Pix como uma suposta prática desleal de mercado, argumento rejeitado pelo governo Lula.

Para a bancada do PT, o sistema desenvolvido pelo Banco Central é uma conquista da infraestrutura pública digital brasileira e não pode ser colocado em negociação.

Os parlamentares contrapõem a atuação da família Bolsonaro às medidas anunciadas pelo governo federal para reduzir os danos econômicos e abrir novos mercados aos produtos brasileiros.

“Enquanto a família Bolsonaro trabalha contra o Brasil, o governo do presidente Lula protege a economia nacional, abre novos mercados, combate o desmatamento, defende o PIX, preserva a independência das instituições e adota medidas para reduzir os danos causados pelas tarifas”, diz o documento.

Lula: “Ninguém ganha mentindo contra o Brasil”

Durante agenda realizada nesta sexta-feira (17), no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para a adoção das novas tarifas e classificou as alegações como mentirosas.

Lula afirmou que pretende se manifestar de forma mais categórica quando Trump falar publicamente sobre o caso. O presidente estava no Rio para visitar as instalações da Carreta de Saúde da Mulher, na Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, e o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia.

“Vocês percebem, companheiros da imprensa, que eu falei pra caramba e não falei do tarifaço? Não vou falar, porque a notícia tem que ser o SUS. A notícia tem que ser as nossas carretas. A notícia tem que ser o tratamento das mulheres. Por isso, eu vou deixar para falar do tarifaço quando o Trump falar. Quando o Trump falar, eu falarei. E, quando ele não falar, eu não falarei, porque nós vamos mostrar que, contra o Brasil, ninguém ganha mentindo”, declarou.

Durigan garante que Brasil não baixará a cabeça

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também afirmou nesta sexta-feira que o governo brasileiro não aceitará passivamente a taxação considerada injusta.

Embora tenha evitado utilizar a palavra “retaliação”, Durigan confirmou que o governo avalia medidas de reciprocidade, em diálogo com os setores empresariais atingidos.

“Não cabe falar em retaliação, essa é uma palavra que está fora do nosso escopo”, disse.

O ministro destacou que a legislação aprovada pelo Congresso permite uma resposta juridicamente fundamentada diante de ataques comerciais injustificados ou unilaterais. Segundo ele, qualquer medida será adotada com cautela e levando em consideração os interesses da economia brasileira.

Durigan afirmou que, mesmo sob a lógica econômica apresentada pelo próprio governo norte-americano, a taxação contra o Brasil não encontra justificativa.

“Em grande medida, como [o governo dos EUA] não tem um contra-argumento, nos parece que do ponto de vista econômico do debate, o Brasil tem razão. Então, como temos razão, a gente não pode baixar a cabeça”, declarou.

O ministro também rejeitou qualquer possibilidade de negociação envolvendo o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.

“O Pix é um ponto de conflito absurdo. Pix é uma infraestrutura brasileira e não é um concorrente de mercado”, afirmou.

Segundo Durigan, o Pix é um sistema público e aberto e não está nem estará em negociação com os Estados Unidos.

Para o ministro da Fazenda, existe um componente político-eleitoral evidente por trás da decisão do governo Trump. Durigan afirmou que Washington recorreu a “fundamentos falsos” para justificar as tarifas, inclusive em temas como o desmatamento.

O ministro lembrou ainda que o Brasil registra déficit na balança comercial com os Estados Unidos. Isso significa que empresas e famílias brasileiras compram mais produtos e serviços norte-americanos do que os Estados Unidos compram do Brasil, produzindo superávit para o lado estadunidense.

Apesar da insatisfação, o governo brasileiro pretende manter os canais diplomáticos abertos.

“O esforço não deixará de ser feito. Assim que tiver a oportunidade, eu vou levar essa insatisfação e nossos argumentos, com respeito, para dizer o quanto isso é prejudicial para a relação bilateral”, afirmou Durigan.

Mauro Vieira classifica falas de Rubio como “grosseiras e arrogantes”

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reagiu às declarações do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que acusou Lula de não negociar de boa-fé com Washington.

“As declarações do secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros”, afirmou Vieira.

O chanceler classificou a manifestação do secretário norte-americano como um ataque “grosseiro e arrogante” ao presidente brasileiro.

“Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo”, declarou.

Vieira também contestou o uso da Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos, instrumento unilateral utilizado por Washington para investigar e punir supostas práticas comerciais de outros países.

“As investigações da Seção 301 são procedimentos unilaterais do governo dos Estados Unidos e não há justificativa para a adoção de tarifas contra os produtos brasileiros”, afirmou.

Brasil realizou mais de 30 reuniões com os EUA

Ao rebater a acusação de que o Brasil não teria negociado de boa-fé, Mauro Vieira apresentou um histórico dos contatos realizados entre os dois governos.

Segundo o chanceler, desde março de 2025 foram realizadas mais de 30 reuniões em níveis presidencial, ministerial e técnico, presencialmente, por telefone e por videoconferência.

Vieira informou ainda que ocorreram 11 contatos diretos com Marco Rubio e com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, incluindo um encontro entre Lula e Trump na Casa Branca.

“Desde o primeiro momento, o presidente Lula buscou diálogo e enfatizou sua disposição de negociar”, afirmou.

O Brasil também apresentou duas defesas escritas durante a investigação norte-americana e enviou uma delegação de alto nível a Washington. Os argumentos brasileiros, contudo, foram ignorados na decisão final.

O chanceler também rejeitou as acusações envolvendo o Pix e o desmatamento. Sobre o sistema de pagamentos, afirmou que “não é sério falar em competição desleal”. Em relação à política ambiental, classificou as alegações dos Estados Unidos como “absurdas” e citou a redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado desde 2022.

Tarifaço teve origem em pressão política por Bolsonaro

Vieira também destacou a vinculação entre as tarifas comerciais e as pressões do governo Trump relacionadas ao processo contra Jair Bolsonaro.

Segundo o chanceler, uma carta enviada por Trump a Lula, em julho de 2025, ameaçava elevar as tarifas brasileiras para 50% caso o processo contra o ex-presidente fosse interrompido. A mesma comunicação teria determinado a abertura da investigação baseada na Seção 301.

A tarifa final de 25% foi resultado desse processo.

Para o governo brasileiro, a vinculação entre uma questão política interna e uma punição comercial demonstra que o tarifaço não possui racionalidade econômica. A nota oficial do Brasil também criticou a colaboração da família Bolsonaro com a investigação conduzida pelos Estados Unidos.

Diante da escalada, o governo Lula anunciou que utilizará os mecanismos da Organização Mundial do Comércio e avaliará medidas de reciprocidade para proteger os setores atingidos.

A bancada petista encerrou sua manifestação reafirmando que os recursos naturais e as estruturas estratégicas brasileiras não podem ser utilizados como moeda de troca em negociações externas.

“O Brasil não será colônia, o PIX não será entregue e a Amazônia não está à venda. Nossas riquezas estratégicas pertencem ao povo brasileiro. A soberania nacional é inegociável!”

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